“Olhar Peregrino” exposição itinerante do Ilê Mulher

A mostra itinerante “Olhar Peregrino” retrata as vivências e andanças dos oficinandos de artes, fotografia e teatro de sombras do Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos (SCFV) – Ilê Mulher em uma perspectiva singular. Propõe uma reflexão sobre a visão de mundo da população adulta em situação de rua, sua historicidade e discursos vivenciados nas suas relações sociais, integrantes da rotina (muitas vezes invisível) da sociedade contemporânea. A mostra indica o pertencimento de cada peregrino ao espaço e tempo da cidade de Porto Alegre.

O trabalho das oficinas no SCFV é potencializar as habilidades de cada participante, permitindo que a sua expressão se dê pela linguagem visual, exercitando, desta forma, o olhar crítico, estético e sensível. A poética da rua é o fio condutor da mostra. Assim, pela valorização do cotidiano vivenciado por cada um, a arte toma espaço, tornando-os artistas.

A mostra cultural itinerante que possui duas ocupações – ficou em cartaz no Vila Flores, em Porto Alegre, no 13 de dezembro de 2018. E, entre os dias 07 à 11 de dezembro de 2017, locada no Espaço Cultural 512, na Cidade Baixa –, é composta por pinturas, fotografias e por projeção de vídeo. No campo imagético, se exprime pinturas íntimas de cada artista, através das memórias de infância expressas nos quadros pintados que trazem imagens de desenhos animados. As pinturas dão vida a criança interior dos artistas e trazem o brincar como inspiração principal do trabalho.

As narrativas fotográficas são construídas por câmeras Pinhole de Sardinha. O resultado com esse tipo de câmera é único, por conta da sua ótica que se distingue das câmeras convencionais, e se assemelha a pintura óleo. A Pinhole (traduzida para português como “buraco de agulha”) é uma câmera fotográfica artesanal que utiliza materiais reciclados e de baixo custo, colaborando com a sustentabilidade na reutilização de plásticos, madeiras e metais.

A Pinhole se estrutura no princípio básico da fotografia que é a câmera escura. Seu uso vai além de um processo didático, pois a câmera beira ao experimentalismo e o resultado são fotografias com sobreposições como a fotografia “Feixe de Luz”, deformidades expressas na “Espectro” e suavidade no foco como demonstrado na fotografia “Dia de Chuva”. Fotografias de câmeras analógicas e digitais também compõem a exposição. As imagens expressam o caminhar de vida dos peregrinos, impregnado pela beleza e simplicidade de ser o que se é.

O visitante também passa por uma experiência única de imersão nos processos e exercícios plásticos, teatrais construídos individualmente e coletivamente pelos usuários e, que são exibidos na mostra em vídeo do Teatro de Sombras. Sonhos, desejos e fantasias impregnam a produção audiovisual, marcadas pelo uso das linguagens visuais e corporais que parecem saltar em vídeo.

Com curadoria de Maíra Coelho, Mariana Souza, Beth Reginatto e Tatiana Faleiro, oficineiras e educadora social do SCFV, a mostra Olhar Peregrino tem por objetivo dar visibilidade a população adulta em situação de rua, fomentando para uma conscientização social, política e cultural.

* Texto: Mariana Souza